11 outubro 2022

Metabolismo

Nos baixios da alma

Recolhi seixos e lembranças de amores perdidos.

Entrevi um mundo de perpétuo Amor.

Entrevi o retorno ao Éden da infância,

E, descalço, qual petiz trocista,

Ri a bom rir na companhia dos avoengos,

Gargalhei de calúnias e maldições,

Ao passar rente ao firmamento da consciência.

Hoje, árdua empresa, comecei a amar.

Custoso começo, este, ornado de dor e poesia,

Retornando sempre, no Retorno do Eterno,

À face dourada do Sol,

À face nocturna das estrelas da orbe celeste.

10 outubro 2022

Singela Vida

 Hoje sou o Rei dos recordes

Só, movo as montanhas do afecto e da luxúria.

Só, Topógrafo-Mor do Cosmos,

Meço o comprimento de cada palavra,

E refuljo, solar, ao som da heróica trombeta do zénite,

Encimando as montanhas da consciência,

Numa perpétua e feliz  afirmação de toda a Vida.

Remexo a memória de Britten,

Esconjuro os demónios de Ducasse e,

Com ambrósia como alimento,

Ressuscito o Monte Olimpo,

Onde a beleza de Hera foi preterida, pelo Argonauta, em favor da da Líbia.

28 junho 2022

Mulher da vida

Por teu ofício és Princesa,

Teu encanto cada dia remoçado,

Embora seja teu um triste Fado,

Tem Cristo por ti uma vela sempre acesa.

 

Vela de consolo e protecção,

Erguendo-te dia-a-dia do pesado chão,

Para o desencanto e quiçá amor,

De ser de teu coração sempre a dor.

 

Dor de 'sperares o Príncipe teu,

Que te levará do descontento,

E soerguerá o teu alento,

E o viverás como Ele to deu.

25 julho 2021

A voz interior.

A voz interior é vida.

Quando, obscurecida pela impotência do sobrevir das amarras do desencanto, obnubila-se, não deixando mais que o silêncio da voz sem fala, os humores chuvosos e bisonhos de um estival dia de chuva, recordação do local de onde venho.

Quando se expande, solta poemas de vida e amor em formas feminis e tudo é atenção e estar sendo, sem de tal tomar nota.

A ponto de, acumulando vida em excesso, não restar mais que chorar odes de amor e sinfonias de luxúria, antecipando o regresso ao Paraíso perdido, himeneu fantasiado e há eras desejado.

Tempo

O tempo passado, para que remete qualquer tempo presente é, para qualquer ilustre e incógnito ser humano, o melhor tempo das nossas vidas.

Vida de alegria e sofrimento, em que o mundo semelha ao sétimo círculo dos Infernos, em que cada passada é arrancada ao chão com hercúlea força e indómita afirmação.

Afirmação sempre renovada por, primeiro, se desconhecer se será a última, segundo, se não saber quanto caminho há ainda a calcorrear.

Afirmação, sim, pelas passadas do tempo passado nos resgatarem da inacção e nos conduzirem, através da solidão imanente, que cada carrega, até ao instante de não sermos já tempo presente do tempo presente e o maravilhoso Cosmos, a cada revolução das orbes celestes, nos condenar, irremediavelmente, à escuridão do tempo, da memória e do amor.


05 junho 2021

Minotauro

Dédalo menos o Sol.
Minotauro.
Imprudência de Ícaro,
Filho perdido,
Choro de pai.
Choro de Minotauro,
Perdido também.
Pelo Sol, jovens atenienses.
Erram, todos,
Pelo cérebro de Dédalo,
Intocados,
Minotauros.
Abutres, todos os vivos.
A carne dos mortos de fome.
Duro e cruel alimento.
Sou.
A progenitura divina não carece de complemento.

02 maio 2021

Scarlett

A tender knocking at my jalousie

O' all the foreigners the Wayfarer

Returned myself to the greenest sea

Of your eyes, worthy fire bearer.

Of lovers' troubles for long awaiting,

Such that Philanthropist's pyre

No longer spoiled, but always shining,

Oh, illuminated sisters dire.

Standing at the centre of the big screen

Emptiness prescribing at a glance

With attentive look never seen,

That all of 'ur minds started to dance


This humble lines a neophyte

Writes to accompany you till night.

25 abril 2021

25 de Abril

Hoje é dia 25 de Abril.

Dia de ousar,

Depurar dos armários do espírito

As lantejoulas breves da Revolução.

Hoje quer-se dia de Revolução.

Assim, sem eufemismos ou tergiversações.

Revolução da Revolução,

A nós legada pelos antepassados,

De nós herdada pelos vindouros.

Revolução do invisível do invertido orgulho,

De nos vermos, assim, livres, prenhes,

Lavradores do Mar autêntico,

Marinheiros, da Terra inculta inauditos,

Sem medo de nos firmarmos na existência do possível, e,

Partindo, coroados pela Musa,

Pela manhã, da fruta madura por colher,

Pela tarde, dos covos por amanhar,

Pela noite, sonhadores dos dias, abertos

Pelas eclusas do firmamento,

Catando estrelas no pêlo dos nossos heróis, e,

Por tal, também no amanhã lembrados

Pelos ditosos dias sem culpa e sem remorso.

16 fevereiro 2021

Aurora II

Eu sou o Sol.

Eu ilumino os céus.

Eu dou vida ao entardecer das árvores.

Eu acaricio, com ardente amor,

As manhãs floridas da Primavera.

Eu beijo, em pródigas manifestações de afecto,

A manhã alada da minha juventude.

Eu sou aquele que orna o céu matinal

De expectativas e sonhos do dia iniciado e, prenhe de esperanças,

Gero nas mentes a alegria de estar vivo.

14 fevereiro 2021

Clamor

O clamor das vozes audazes

Quebram o ardor do meu silêncio,

Viciam-me de orgulho e destreza a enviesada pena.

Acordam em mim laços de memória sensíveis,

Às quais o meu ânimo corresponde,

Fazendo, da floresta densa,

Local aprazível para a minha folia.

E, tal como os mais, ergo-me, fiel a mim mesmo,

À hora em que os mochos esvoaçantes,

Na busca de uma qualquer presa,

Receptáculos da minha oração vespertina,

Se incendeiam, prenhes de amor e luxúria,

À hora em que o frio vento da terra se enobrece,

E, impassível e impetuoso,

Acrescenta o sentido das coisas sensíveis,

Desdenhosamente alicerçadas no vazio,

Às pregnâncias da existência, suave e calorosa,

Após a morte de qualquer desencontro

Entre palavra e seu sentido particular,

Entre as gotas de orvalho que,

Pela manhã, ouço descer dos céus,

Evanescentes pelo acordar do solar ardor,

A que, respeitosa e silentemente, desejoso observo.

O meu desejo adorna então o meu espírito,

Transmutando toda a palavra dita no silêncio da carne,

Em poderosas alavancas de amor e mel.

Refaço-me, então, perdido e só,

Na estreiteza do coração a mim alheio,

Cuja consciência me preenche de uma alegria infantil.

Pueril lembrança dos momentos ditosos,

Que o futuro me reserva no seu devir de mar sem limites,

Alma latejante que me guardo, qual príncipe encantado,

Nos interstícios da minh’alma, assim, feliz, despojada de atavismos.

11 fevereiro 2021

Scultrice

Nelle diteggiatura com colpi di scalpello,

Sei salito in cima alla piacevole collina,

Dove risede il fedele e tenero monolito,

Custode zelante dell’umana aventura dell’essere vivi.

Dall’alto, quale Filantropo,

Hai portato la fiamma della gioia di affrontare la pietra,

E, fedele alla terra, rendila mórbida e gentile.

E agora?

E agora Pelos caminhos inolvidáveis da lonjura, Errantes, caminhamos, Sem culpa e sem destino, Às horas tardias do findo meio-dia, D’espe...