26 outubro 2018

Recomeçando


Do puro perfil da tua face

Que, tresloucado, recusei,

Tento agora, sem ânsias,

Do solo aos meus estilhaços dar sentido.

Sentido possível, da tua sentida ausência,

Parte partida da impossibilidade de ti

Para a outra face do irrecusável nós

Em que agora, sem a dourada face como companhia,

Do plúmbeo zénite tento insatisfeita alegria.

05 outubro 2018

A Carla Ysis (Renaciendo)

Me recuerdo de tí, El Cantante de morena voz,
En la noche inolvidable de Cracovia,
Deshilando Recuerdos de Ypacaray,
Y, como sí fueras El Passional,
Palabreabas La Flor de La Canela.

Decías, de otro, Somos Novios,
Mientras lo que deseaba de tu boca oír,
Que Somos Amantes, tu y yo.

No Lloraras y ficaré siempre,
Como Fue, El Membrillito,
Hasta que en mí seno
no broten más que Lagrimas Negras.

26 setembro 2018

Libertação

Escrevo estas linhas
À hora caldo de sopa quente
Da minha ventura.

Após reencontro de amigos,
Cada um de nós uma vontade de liberdade em processo,
Decidi lutar contra o inevitável
Prolongar da minha levemente adocicada agonia.

Já não me revejo na imagem que, de mim a mim, nunca alguma realidade fundou.

Busco novos caminhos de vida,
E tu, fruto amargo que, desabridamente,
Entre loas, sorvi, já nele não tens lugar.

Por isso, calma tua tempestade,
Que eu permaneço, qual neófito,
Um dedicado, ainda que relutante,
Aprendiz da vida plena.

16 setembro 2018

Tu

Digo Tu
E o mundo refaz-se todo em mim.
Todas as madrugadas em que sonhei
Acreditando seres Tu o fiel da balança
Entre mundos tão díspares
Como o Eu e o Nós.
Digo-te baixinho
Digo-te de modo oblíquo, de viés
E sinto-me perdido na tua rectidão
A que sinto não ser digno
Por ser belo e bom tudo o que de ti provém
Todo o balançar do teu corpo
O som fisicamente palpável dos teus silêncios
E o das palavras por ti proferidas
O movimento da tua boca ao dizê-las
A tua coquetterie de prima ballerina
A tua timidez angelical e pura
Das minhas profundezas me trazem à tona
Apenas para me deslumbrar com a tua graça
Da tua presença e dos teus gestos feminis de mulher adulta
Não te imaginando eu capaz de um gesto deselegante.
Anseio por estar perto de ti
Ainda que me sinta desadequado
Quando não ridículo na tua presença
Quando te vejo rejuvenesço, acredito no impossível
E em ser capaz de mover Céus e Terra
E escrevo. Escrevo furiosamente
Até à combustão das palavras
Até à minha própria danação de ser desejante
Escrevendo continuamente até ao fim dos tempos
A partir desta varanda
De onde se vislumbra a realidade das coisas sensíveis.
Quero queimar-me inteiro e capaz
Na sarça ardente do teu Amor
E fundar religiões, provocar terramotos
Pelo confronto carnal dos nossos corpos desnudos e livres.
Quero o Absoluto, doido que sou
Um Absoluto que ultrapasse a barreira final
E perdure, perdure sempre, até ao fim dos tempos
E nenhum Homem ou Mulher se olhem
Como o fizeram até hoje.
Mas tudo isto são quimeras
Sonhos vãos de uma alma apaixonada
À qual nunca foi dada a oportunidade
De te enlaçar em seus braços
E, olhando-te no mais íntimo dos teus olhos
Dizer-te
Amo-te, meu Amor

14 setembro 2018

A ti, coragem

De Wotan ilustre descendente,
Bela dama de doiradas grevas,
Tua graça é coragem de Héllas,
Teu porte porta do imponente.

De ebúrneos e túmidos seios,
Que da líbia seriam inveja,
Leitosa via visão deseja,
Evolam de céu os meus anseios.

Vem e toma o meu em teu braço,
Partirás para novas paragens,
Que sejam um lar nossas orações.

Assim te dou de meu teu esquiço,
Que te acompanhe em viagens,
E te lembre de mim noutras visões.

07 setembro 2018

Autoemocionografia

                                                                                               
                                                                                        "
                                                          (…)
                                                          No te pude ver
                                                          cuando eras soltera,
                                                          mas de casada
                                                          te encontraré.
                                                          Te desnudaré
                                                          casada y romera,
                                                          cuando en el oscuro
                                                          las dote den.
                                                          (…)
                                                          "

                                              in Yerma, Federico Garcia Lorca



Memória persistente


          Recordo, misto de dor e prazer, as mulheres por quem me fui apaixonando ao longo da minha vida. Detenho-me no que delas em mim foi vida e desilusão. Esta, vida ainda, após aquela, sempre após aquela, que, por timidez, inépcia ou medo, nunca se concretizou.
        Nomes, ao acaso, preenchem a minha mágoa: Rita, Isabel, Filipa, Patrícia, Ana, Susana, Alexandra. E Sara. Tu Sara. Digo-te de novo, tu em quem as minhas memórias e o meu ser se perderam definitivamente e em quem permaneço à deriva.
          Amo-vos ainda e de vós guardo ainda  tanto as memória de tempos felizes e esperançosos de poder estar convosco e ver no mais fundo de vós. Igualmente das desilusões de vos ver desaparecer e ficar assim, só, assistindo impotente ao equilíbrio e à guerra entre felicidade, mágoa, raiva, a certa altura da minha vida e, por fim, também ódio, sem nele tomar parte, pois tudo isso sou eu também.
           Sois vós memórias persistentes do meu jardim, que cuido com amor e ternura.
         Mas tudo isto é nada. Sinto faltarem-me as palavras e a arte para descrever o vós em mim e todas estas me parecem aquém do que gostava de escrever, algo que fizesse jus ao que por vós senti e me faz chorar tantas amargas lágrimas que de uma fonte inesgotável do meu âmago se vão desprendendo e por meus olhos brotando.

                                    "
                        (…)
                        E eu vivo aqui desterrado e Job
                        da Vida-gémea d'Eu ser feliz!
                        E eu vivo aqui sepultado vivo
                        na Verdade de nunca ser Eu!
                        Sou apenas o Mendigo de Mim-Próprio,
                        órfão da Virgem do meu sentir.
                        E como queres que eu faça fortuna
                        se Deus, por escárnio, me deu Inteligência
                        e não tenho, sequer, irmãs bonitas
                        nem uma mãe que se venda para mim?
                        (…)
                        "

                                    in A Cena do Ódio, José de Almada Negreiros

Loucura

           Penso o fora como se de dentro se trate e tudo para mim seja dirigido e planeado por não sei quem ou onde.
          Resto-me com que tentar repor alguma distância entre mim e o mundo. Uma pele emocional, como alguém me disse, que faça  realmente Outro, ainda que o Outro dentro de mim, com quem me dar.
          Desconheço o caminho para lá chegar. Sinto-me cego, vagueando no escuro pelo mundo, que tomo como tendo em mim o seu centro num desejo omnipotente de tudo possuir e de nada abdicar.



                  "
            (...)
            Tu não sabes, meu bruto, que nós vivemos tão pouco
            que ficamos sempre a meio-caminho do desejo?
            (...)
            "

                        in A Cena do Ódio, José de Almada Negreiros


Cogito

       Não fico triste nem deprimo, dizem-me.
       Dizem-me também que sei muito e que tal me tem ajudado no meu percurso terapêutico.
       Sinceramente, à excepção do uso caseiro, não acho que tal tenha muita importância.
         Na intimidade, com uma mulher nos braços, de nada vale recitar-lhe excertos d"A Cena do Ódio" pois não há fuga possível ao encontro da carne e da solidão partilhada a dois.


  "Queria de ti um país de bondade e de bruma
  Queria de ti o mar de uma rosa de espuma."

  in Manual de Prestigiditação, Mário Cesariny de Vaconcellos

27 agosto 2018

Lancei em muitos mares

Lancei a minha garrafa
Em muitos mares.


Lancei a minha garrafa
em muitos mares.
Até, de cada lançamento,
Não restar, em mim,
Memória viva, em tempos dolentes,
Aqueles em que, gozando o ócio,
Mais nos pasmam, a cada esquina,
As mais agradáveis lembranças,
De sua pretérita existência.


Lancei a minha garrafa
Em muitos mares.


Lancei a minha garrafa
Em muitos mares,
Em busca da alma errante e só,
A quem a minha escrita
Não causasse equívocos,
E fizesse da minha mensagem,
No cume da mais alta montanha,
Um cadinho de palavras e gestos,
A um só tempo amorosos e perversos.
Teia, formosa teia,
Paciente e delicadamente tecida,
E de equívocos e certezas ornada,
Tal como a breve vida de todos os viventes,
Futuro e inevitável pó.


Lancei a minha garrafa
Em muitos mares.

25 agosto 2018

Para ti, desconhecida

Numa barca o 'stige atravessando,
Pela timoneira de Caronte,
De ti, anelo de pura fronte,
Por medo ao largo fui passando.

Sem, por ora, de ti mais saber,
Vou, aqui no Hades de mortas almas,
Do aio do Tebano as calmas
Narrações do Ítaco conhecer.

Já, ao longe, a lira de Orfeu
O cão dos Infernos vai calmando,
Em busca da Eurídice sua,

Quando aquele desejo for o meu,
Dez mil liras em concerto tocando
Celebrarão já a vida nua.

                                                     à Lurdes

15 agosto 2018

Ode ao soldado

E, de repente, sem saberes como nem porquê,
Viste-te engrossar, como soldado,
O Exército d'Aqui,
Na sua guerra eterna contra o Outro.
Foste treinado e equipado,
A despeito de nada d'Ele conheceres,
Na crença, que te ensinaram
desde tenra idade, das más intenções
D'Esse mesmo contra ti.
Nasceste, brincaste, choraste, bateste,
Cresceste e, eis-te aqui,
Garboso soldado dos lados d'Aqui,
A quem os outros admiram e o Outro teme,
Tal como, decerto um dia saberás,
Ser o inverso também verdadeiro,
Quando te vêm passar, fardado e
Altivo portador de tudo que, geração após geração,
os Nossos têm acumulado desde sempre,
De conhecimento e moeda,
Riquezas interiores e exteriores,
Como decerto entenderás.
Mas vive agora.
Vive e aproveita tudo o que os Nossos têm,
para teu contentamento, a te oferecer.
Cresce em contentamento e em força,
Pois de tudo necessitarás
Quando defrontares o Outro.
E todas as recordações,
O mais aprazíveis e em abundância
Sejam, por e para graça dos que nos guiam e sempre guiaram.
Chegará, então, o dia
Em que serás levado para o confronto com o Outro,
E lá te encontrarás, crescendo ainda,
Mas, desta vez, se sobreviveres, em ódio e em amor,
Até esse paradoxo dilacerante, dentro de ti,
Te tornar um Homem, caso o resolvas,
Ou te levar à loucura, se tal não suceder.
Não te esqueças, finalmente, que, se te vires, no hausto da noite,
Em território do Outro,
Alvejado mortalmente, num ermo,
Sozinho e sem ajuda,
Sem teres,
No Alto ou em todos os que conheceste na tua vida,
Em quem te apoiar ou pedir ajuda, perdão ou consolo,
Que a tua morte não será em vão,
Pois, por muito curta que tenha sido,
Sempre marcaste a Vida com a tua presença,
Triste ou alegre, disponível ou ausente.
E, se ainda o puderes, e a dor não to impedir,
Olha o céu, as estrelas distantes e os planetas,
Próximos ou distantes e lembra-te disto:
Também eu engrossei as fileiras dos Nossos,
Na sua guerra eterna contra o Outro,
E após largos anos de luta,
Árdua de altos e baixos, vitórias e derrotas,
Que cicatrizes muitas e profundas me deixaram,
Apenas fiquei ciente da Imensidão
e do Silêncio, respostas à minha procura de
Quem me salvasse de mim próprio ou me guiasse,
Tendo apenas aprendido como a vida é frágil,
E nós apenas sombras desajeitadas,
Procurando a Imortalidade, uns,
Ou a Salvação e a Eternidade, outros.
Tenta lembrar-te, nesses últimos momentos,
Dos gestos de bondade que tiveste para outros,
E, se tal for o caso, a dignidade
Com que sempre te mantiveste altivo,
Corajosa e generosamente respeitador
Da dignidade do Outro,
Tal como da tua.

14 agosto 2018

poesis (ou, fazer algo, não importa o quê) - escritos antigos


O corpo-a-corpo do Amor

Mais uma vez, do princípio.
O corpo-a-corpo do amor
É composto por três partes:
O negócio, o alvitre, a fugacidade e, por fim, a morte.

No negócio fazem-se lances,
Apostas de sangue, saliva e sémen.
É a noite quente do amor.
A hora da ocultação dos sobejos
E a da exibição despudorada dos amplexos.
O negócio é uma flor delicada,
Um seio excitante entrevisto lascivamente entre dois bocejos.
É a noite quente do amor.

O altivo alvitre
É a maravilhosa sumptuosidade dos mercados, dos bazares e das feiras.
De tudo o que é conjunto e exala um odor a especiarias orientais.
É o gozo dos jantares à luz de velas nas açoteias de astros desconhecidos.

Na fugacidade trocam-se
Golpes de amor-próprio
Na franqueza do outro
Na precessão dos equinócios dos corpos
Em que cada vale resguardado
É sabiamente evitado por outra convulsão
Da ordem estabelecida.
Tal como numa revolução em que
Os indivíduos se abandonam
A escaladas de ofensas e golpes,
Quentes e desmesurados,
Como a lava escorrente
Dos vulcões em erupção, imparáveis e obscenos.

E a morte?
Não sei, nunca a vi.
Mas presumo que seja
O zero Kelvin da inexistência
A conjugação de inexistências
Para atingirem coisa nenhuma.
A ausência da ausência.




Isto não significa absolutamente nada

Hoje
O meu ontem decidiu
Voltar-se para o meu amanhã
Num gesto de
Ânsia,
Oculto, cego e impossível,
E nos altares de deuses incógnitos
Foram depositadas ofertas de pura dor.
Dor já sonhada nos livros luminosos de Marqueses e Condes.
Que hoje, como ontem, connosco amanhã gritarão:
- Puta que pariu todos os realejos cronométricos, esses objectos infernais de medir a desmesura da palavra Amo
Como, aliás, de toda a palavra.

E tu, estalajadeiro,
Não esqueças as medidas certas de absinto
Para a mesa dos que aguardam, há eras,
O comboio, sempre atrasado, da experiência sensível.
E que, entretanto, se afadigam,
E procuram
E perseveram
Em nada fazer.
Alheios aos esforços, infinitamente diabólicos,
De toda a persuasão e de todo o perdão,
Humanos ou divinos.






Curioso!

É curioso
Que me tenha recordado de ti,
Na madrugada,
Corrossel infantil,
Dos despojos do amanhã,
À medida que folheava
As páginas solarengas do livro dos impossíveis.
Necessito esquecer:
O pó,
O vazio,
A dor, e
A sagrada religião de que só tu és a imaginada celebrante.
Esquecer filosofias e sapos
E permanecer ainda no cais conceptual da tua beleza.
E ver partir, sem bilhete ou possibilidade de o comprar, o cacilheiro advento mágico do teu seio.

06 agosto 2018

As Ondas (escrito à beira m'água)

Ondas.
Ondas sem fim.

As Ondas são Titânides,
Muito amadas e dilectas filhas
De Filantropo, amigo dos Homens, e Tethys, prolífica e virtuosa dama.

Nascem, em noites de Lua plena,
No fundo mais profundo do largo Mar Oceano,
E vêm morrer à costa de todos os Continentes do Mundo,
Trazendo novas, alegres ou amargas,
Plenas de sageza e amor,
Das almas perdidas na vasta distância.

Se vires uma cala em ti o Verbo
Pois elas, silentes errantes do porvir,
Estão ali apenas para te lembrar e fazer compreender
O sentido último e amoral da Justiça do Cosmos.

E agora?

E agora Pelos caminhos inolvidáveis da lonjura, Errantes, caminhamos, Sem culpa e sem destino, Às horas tardias do findo meio-dia, D’espe...