Da paixão de Amor
Me cubro com prazer,
No sonho da ditosa dor,
De te ver amanhecer.
Estou de ti enamorado,
Luz minha portentosa,
Por ti cavalgo em prado
Que dá teu signo à minha prosa.
04 setembro 2019
30 maio 2019
Parturiente
Estava a minha caneta, fecunda,
A destilar memórias de tinta,
Tal que resolvi escrever-te
Sobre a reserva da memória,
Nestas simples linhas,
Em que a clareza da página em branco
Se torna, necessariamente,
No gesto do teu corpo
Ao dares à luz uma nova vida.
Mulher-Mãe.
Perpétuo devir.
Sim. E sim novamente.
E nesse transcorrer do tempo,
Na queda da areia pela ampulheta,
Mede teu corpo a imensidão
Dos espaços virgens,
De um novo recomeço,
De uma nova promessa,
Renovada promessa
De um caminho silencioso.
Do caminho sempre por trilhar.
20 maio 2019
Recomeçando
Recomeçando
Do puro perfil da tua face
Que, tresloucado, recusei,
Tento agora, sem ânsias,
Do solo aos meus estilhaços dar sentido.
Sentido possível, da tua sentida ausência,
Parte partida da impossibilidade de ti
Para a outra face do irrecusável nós
Em que agora, sem a dourada face como companhia,
Do plúmbeo zénite tento insatisfeita alegria.
Do puro perfil da tua face
Que, tresloucado, recusei,
Tento agora, sem ânsias,
Do solo aos meus estilhaços dar sentido.
Sentido possível, da tua sentida ausência,
Parte partida da impossibilidade de ti
Para a outra face do irrecusável nós
Em que agora, sem a dourada face como companhia,
Do plúmbeo zénite tento insatisfeita alegria.
Ana Bela
Ana,
Bela a graça tua,
Bela Ana trauteia o meu coração,
Canções e festões de rua,
Que se aconchegam,
Aninhados,
Na palma da minha mão.
Pretérita plangente alma,
Acolhe, remoçada,
Em esperançosa calma,
Esta luz solar,
De Amor entretecida,
E por Afrodite e Eros abençoada.
Bela a graça tua,
Bela Ana trauteia o meu coração,
Canções e festões de rua,
Que se aconchegam,
Aninhados,
Na palma da minha mão.
Pretérita plangente alma,
Acolhe, remoçada,
Em esperançosa calma,
Esta luz solar,
De Amor entretecida,
E por Afrodite e Eros abençoada.
O Parto
Sento-me à
mesa, olho-me através da lupa do tempo que já passou da minha vida e vejo que:
O cimento
vegetal
Das plantas
vagas, Jogam jogos de doces,
Mendicantes de
espírito e vida,
Quebrados pelo
eterno refluxo
Desse tapete
vivo
Que é o Mar Oceano.
Tapete de
secretos compassos,
Que apenas
Titãs e Titânides conseguem decifrar,
E cuja
sapiência se esforçam
Dela o Homem
instruir.
Em
vão? Nesta questão me detenho, tal como em todas as questões que alguma vez
interceptaram a minha vida.
Tudo
o resto é chumbo, destinado a afundar-se nas profundezas da memória.
E
o coração? A metade viva, que ensina a fidelidade a si e, porque não o dizer,
canta, compassadamente, a canção do nosso amor!!!
E
o corpo?
Esse
metrónomo da concupiscência,
Instrumento da
descoberta erótica,
Do Outro e da
Lei.
Lugar de
recreação sensível,
E paragem do
comboio do êxtase.
E, agh! Raios!
E a fúria!!!
A Fúria.
A insanidade.
O bivaque. O
bitoque.
Vivamos assim.
Assim, como.
Como assim.
Pequenos e
dispersos.
Chaque de nous
un Cosmos qui danse autour le feu, jusqu’à devenir, nous mêmes, une explosion
mouvante de haine et de rage et, ainsi, devenir. Devenir. Devenir une lumière,
un phare. De toute façon la propre flame.
Comme les yeux
de un tomber de jour tremblotant.
Et, ah, comme me fairait plaisir de
te refuser, mon coeur. Et vivre la vie des poètes maudites, les gros
vouleurs des pièrres du temple de Kali, la renverseuse mère de la ruine des
peuples.
23 abril 2019
Pedra
Não!
Não! E mais não!
Não há explicação para isto. Para toda esta alegria.
Para toda esta leveza de alma,
Que sinto brotar, sem cessar, de cada recanto,
Tal que levito acima dos outros mortais,
Como se estivesse sob efeito de qualquer narcótico,
E em tudo achasse graça,
E que de tudo me risse.
Como se tivesse de meus pais herdado
A irmandade e o entendimento
Da comédia do mundo e, qual folião,
Fizesse de cada instante,
Uma celebração à honra de estar vivo.
Mas tudo isto me parece um pouco exagerado!
Onde a seriedade?
Onde o factotum das pedras?
Para me mostrar o caminho de regresso ao desejado inverno?
Enfim. Tenho de me contentar e ser simplesmente feliz.
Há destinos piores.
Não! E mais não!
Não há explicação para isto. Para toda esta alegria.
Para toda esta leveza de alma,
Que sinto brotar, sem cessar, de cada recanto,
Tal que levito acima dos outros mortais,
Como se estivesse sob efeito de qualquer narcótico,
E em tudo achasse graça,
E que de tudo me risse.
Como se tivesse de meus pais herdado
A irmandade e o entendimento
Da comédia do mundo e, qual folião,
Fizesse de cada instante,
Uma celebração à honra de estar vivo.
Mas tudo isto me parece um pouco exagerado!
Onde a seriedade?
Onde o factotum das pedras?
Para me mostrar o caminho de regresso ao desejado inverno?
Enfim. Tenho de me contentar e ser simplesmente feliz.
Há destinos piores.
05 janeiro 2019
Prototema
silêncio
E, no fundo, sempre se retorna
Ao silêncio!
Se é que de lá alguma vez
Se parte.
Armados de nós próprios,
De tudo o que somos,
Dispostos a um novo recomeço,
Que, pelejando, vá mais fundo,
E, na alegria da luta, um golpe de asa,
Pleno de noite e luar,
Nos lance ao zénite,
Sobretudo o das horas nocturnas.
E vivamos, forçando o Destino,
Uma existência a que possamos chamar Nós.
E, no fundo, sempre se retorna
Ao silêncio!
Se é que de lá alguma vez
Se parte.
Armados de nós próprios,
De tudo o que somos,
Dispostos a um novo recomeço,
Que, pelejando, vá mais fundo,
E, na alegria da luta, um golpe de asa,
Pleno de noite e luar,
Nos lance ao zénite,
Sobretudo o das horas nocturnas.
E vivamos, forçando o Destino,
Uma existência a que possamos chamar Nós.
Vesper
auto-retrato
Dez mil demónios
me atormentam,
De deserto
enchendo minha vida.
Minha desventura,
por medida,
De amores
perdidos se sustentam.
Cada instante
minha alma destroem,
E em todo o
porvir se intrometem,
Que em mim toda
virtude fenecem,
E toda la esperança
corroem.
Em sentidas
linhas discorrendo
Os revezes que do
largo mundo,
Desde sempre
tenho impressão.
Em versos mi
tristeza vertendo,
De liberdade ser
infecundo,
Tal que ser não
tenha permissão.
15 dezembro 2018
Confissão
Olhos vítreos,
Humor leve,
Amor crispado.
Assim folheio as páginas em branco
Do livro das palavras fáceis,
Buscando metonímias, metáforas, quiasmas
Do desafio heterodoxo da pluma,
que, fútil, encerra cem mil almas ocas,
Ignotas paisagens cadenciadamente
Buscadas por desejo de fuga
À vil centelha da morte em vida,
Que do ser se vai soltando
Em gotas corrosivas.
Que, enfim, me tornam a alma tão carente
E eu tão perdido.
Humor leve,
Amor crispado.
Assim folheio as páginas em branco
Do livro das palavras fáceis,
Buscando metonímias, metáforas, quiasmas
Do desafio heterodoxo da pluma,
que, fútil, encerra cem mil almas ocas,
Ignotas paisagens cadenciadamente
Buscadas por desejo de fuga
À vil centelha da morte em vida,
Que do ser se vai soltando
Em gotas corrosivas.
Que, enfim, me tornam a alma tão carente
E eu tão perdido.
10 novembro 2018
A uma desejada companheira
Minha paz,
Meu silêncio,
Minha quietude,
Meu amor finalmente conquistado,
Minha virtude,
Minha alegria de andar desenlutado.
Do final do cativeiro meu,
Olha para quem ensandeceu
E, finalmente, está levantado.
Levantado após o trovão e a borrasca,
E, da dura e tortuosa casca,
Por teu amor e amparo,
Finalmente libertado.
Meu silêncio,
Minha quietude,
Meu amor finalmente conquistado,
Minha virtude,
Minha alegria de andar desenlutado.
Do final do cativeiro meu,
Olha para quem ensandeceu
E, finalmente, está levantado.
Levantado após o trovão e a borrasca,
E, da dura e tortuosa casca,
Por teu amor e amparo,
Finalmente libertado.
01 novembro 2018
Motu continuum
Agora que os espantalhos figurativos
Que na retentiva a mim acessível
Em modos de afirmação possível se vão transformando,
Sempre passíveis de naufragar
Em lampejos de luz de uma titânica bomba de afecto,
Revejo e recito para mim
As palavras que, desconhecidas, gostaria de ter escrito,
Fazendo da volúpia que me habita
Uma récita para surdos, como todos os outros o são.
Surdos à minha desentendimência,
Bem como aos sons ocos da minha alma litográfica,
Tornados perenes após a minha queda
Neste espaço que me esforço por ocupar,
Aquele de que me considero capaz,
Tudo prescrutando. Tudo ponderando.
Até que, aos lentos e suaves toques que
As paredes da minha cela
Me devolvem em alegria e desespero,
Entenda que nunca chegarei ao cimo da minha montanha,
E nunca ali hastearei a bandeira da minha vitória.
Vitória sobre mim mesmo.
Nem nunca dali verei, orgulhoso, a minha distância.
Nunca ouvirei, porque cego, a cor poliédrica do meu silêncio nem,
Surdo, as curvas ululantes da minha perda.
Sim, pois tudo não passa de um café e uma bola-de-Berlim,
Sábado, pela manhã ainda bisonha, na Praia Grande,
E o trabalho, sempre o trabalho que, inevitavelmente,
Me transcende, com a guerra, sempre inacessível,
Entre passado, porvir e o inabitável e inefável agora.
Talvez algum dia atraque num porto a meu gosto,
Ou nem sequer isso, permaneça em mar alteroso,
Tentando descortinar o sentido de os meus pés nunca
tocarem terra firme.
Que na retentiva a mim acessível
Em modos de afirmação possível se vão transformando,
Sempre passíveis de naufragar
Em lampejos de luz de uma titânica bomba de afecto,
Revejo e recito para mim
As palavras que, desconhecidas, gostaria de ter escrito,
Fazendo da volúpia que me habita
Uma récita para surdos, como todos os outros o são.
Surdos à minha desentendimência,
Bem como aos sons ocos da minha alma litográfica,
Tornados perenes após a minha queda
Neste espaço que me esforço por ocupar,
Aquele de que me considero capaz,
Tudo prescrutando. Tudo ponderando.
Até que, aos lentos e suaves toques que
As paredes da minha cela
Me devolvem em alegria e desespero,
Entenda que nunca chegarei ao cimo da minha montanha,
E nunca ali hastearei a bandeira da minha vitória.
Vitória sobre mim mesmo.
Nem nunca dali verei, orgulhoso, a minha distância.
Nunca ouvirei, porque cego, a cor poliédrica do meu silêncio nem,
Surdo, as curvas ululantes da minha perda.
Sim, pois tudo não passa de um café e uma bola-de-Berlim,
Sábado, pela manhã ainda bisonha, na Praia Grande,
E o trabalho, sempre o trabalho que, inevitavelmente,
Me transcende, com a guerra, sempre inacessível,
Entre passado, porvir e o inabitável e inefável agora.
Talvez algum dia atraque num porto a meu gosto,
Ou nem sequer isso, permaneça em mar alteroso,
Tentando descortinar o sentido de os meus pés nunca
tocarem terra firme.
Incipit tragoediae,
Ceratonia siliqua
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